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Quarta, 20 de Maio de 2009 | 01:20 UTC-3 | | 2 comentários
Estamos em 2009. A internet comercial brasileira começou lá por volta de 1995. São 14 anos - período que, em tempo internético, representa várias gerações de internautas.
Eu conheci a web em 1996. Devo pertencer, então, à segunda geração de internautas brasileiros (a primeira sendo aquela do pessoal das universidades e dos que trouxeram a novidade do exterior). Carrego comigo a nostalgia de uma época em que a web era precária, podre mesmo, mas absolutamente deliciosa :) Quer ver?
1. ICQ
Vivemos tempos de Twitter, Skype e MSN. Mas o que causava sensação nos idos de 1997 era mesmo o ICQ. Para quem estava acostumado com o assincronismo do e-mail ou com a aleatoriedade dos bate-papos web e IRC, o ICQ era profundamente revolucionário: você sabia quais de seus amigos estavam online e poderia conversar, em tempo real, com eles!
Foi uma febre. De repente todo mundo começou a fazer o download do ICQ - no Tucows, talvez? - ou mesmo a comprar, nas bancas de jornais, os famosos CDs de compilação de "softwares para internet". As pessoas decoravam seus números de ICQ (às vezes enormes, de mais de 10 dígitos) como se fossem seus telefones. Em casa e até mesmo no trabalho era comum ouvir o famoso "uh-oh" das mensagens novas pipocando.
O ICQ foi lançado em 1996 por uma empresa israelense chamada Mirabilis. Em 1998 a Mirabilis foi comprada pela AOL pela bagatela de 407 milhões de dólares. Em 1999 a Microsoft lançou o MSN Messenger (hoje se chama Windows Live Messenger, mas quem o conhece por este nome?). Em 2001 o MSN vinha por padrão no Windows XP. O reinado do ICQ acabou aí.
2. Bate-papo do UOL
Brasileiro gosta mesmo é de se encontrar, conversar, socializar. E o exemplo clássico disso foi o serviço que dominou a internet brasileira até pouco tempo atrás: o bate-papo do UOL. O motivo do sucesso? OK, era um serviço de chat leve e fácil de usar. Mas o que importava mesmo era a lotação de suas salas - estavam sempre repletas de gente!
Gente que queria gente. Milhares de brasileiros construíram suas carreiras, digamos, amorosas, através do bate-papo do UOL. Os chateiros tinham até suas técnicas. A conversa começava sempre com o indefectível "quer tc?" e encaminhava rapidamente para uma lista de atributos físicos - cabelo, olhos e principalmente peso e altura. Caso engrenasse, ocorria troca de fotos. Com sorte, o papo poderia prosseguir no e-mail ou mesmo telefone. Senão, sem problemas: bastava disparar outro "quer tc?" para alguém e continuar a pescaria.
Bonus round: mIRC
A versão geek do bate-papo do UOL era o IRC. IRC é o nome do protocolo de bate-papo. Mas o pessoal chamava mesmo de mIRC, que era o nome do cliente mais usado. Como acontece com tudo que é geek, bater papo no IRC nunca foi um hábito exatamente popular, mas foi durável. Até hoje tem pessoas que gostam e há diversas salas ativas por aí.
3. Cadê?
Em uma época em que não havia Google e em que todos os internautas, no fundo, eram novatos, os guias de sites mandavam. Sejam eles virtuais ou não. O Yahoo! foi o mais famoso e bem-sucedido deles. Mas no Brasil quem reinou soberano foi o Cadê. Estar ou não no Cadê significava a diferença entre o sucesso e o fracasso de um site.
E isso demorava. Como todo catálogo, o Cadê não era automatizado. Uma equipe de profissionais conhecidos como websufers vasculhava a internet em busca de conteúdo interessante. À medida que encontravam, os sites eram então classificados e descritos. Quer dizer: levava no mínimo um mês para o site que você lançou e sugeriu ao Cadê aparecer na busca. Mas todo mundo usava, fazer o quê...?
O Cadê foi comprado duas vezes: em 1999 pelo portal latino StarMedia - um dos símbolos do estouro da bolha - e, finalmente, em 2002 pelo Yahoo!. Hoje ainda vive, na mais completa obscuridade.
4. Revistas de internet
Falamos de guias de sites. Vários deles não estavam na internet. Eram revistas mesmo. Como a web era um verdadeiro cipoal, muitos internautas perdidos recorriam à boa e velha banca de jornal. Compravam uma revista e a usavam como bookmark.
Três publicações ficaram bem famosas: a Internet World (versão brasileira de uma revista americana), a Internet.br (da Ediouro) e a Revista da Web (da Abril, mais tardia). Elas traziam matérias e colunas, mas seu conteúdo principal era, invariavelmente, uma longa lista comentada de sites. Várias encartavam brindes como CDs de provedores (principalmente UOL) e de softwares (como ICQ e Internet Explorer). Nenhuma delas teve vida muito longa - e o gênero "revista de internet", em si, deixou de existir nesses moldes. Mas essas revistas marcaram época.
Bonus round: iBest
A Internet World era parte de um "plano de dominação mundial" extremamente bem arquitetado por seu dono, o empresário Marcos Wettreich. O objetivo da revista era promover o real negócio de Wettreich, a organizadora de eventos Mantel. Um dos eventos secundários da Mantel se tornou fundamental para os planos de Wettreich: a eleição, pela Internet World, dos melhores sites do Brasil, o IW Best. O meio de escolha era votação popular. Espontaneamente os webmasters começaram a divulgar o globinho amarelo do prêmio, na tentativa de angariar votos. E os que ganhavam o exibiam, como um troféu. Assim, Wettreich teve a sua marca espalhada, gratuitamente, em quase todos os sites do país. Até em grandes portais como UOL. A marca - renomeada depois para iBest - ficou muito famosa e acabou vendida para a Brasil Telecom em 2003. Hoje o prêmio, que ainda existe, é irrelevante, mas o que importa? Wettreich ficou milionário!
5. GeoCities
1996. Não existia Facebook, não existia Orkut, não existia blog, não existia Write4net. Mas os internautas queriam marcar sua presença na web. Como? GeoCities!
O GeoCities era o MySpace da época, mas sem esteróides. Ele dava um punhadinho grátis de disco (entre 3 e 5 megas) para os internautas que sabiam alguma coisa de HTML publicarem suas "páginas pessoais" - esse era o termo na época.
O charme esquisito do GeoCities era o seu sistema de endereçamento. Você, ao criar sua página pessoal, escolhia o tema da sua página. Dependendo da escolha, a URL da sua página poderia ser GeoCities.com/Vienna/Strasse/1234 ou GeoCities.com/Hollywood/Road/5678. Assim mesmo, bem fácil de lembrar.
O GeoCities foi comprado em 1999 por 3,57 bilhões (sim, bilhões) de dólares pelo Yahoo!. Em abril o Yahoo! anunciou que irá fechá-lo até o final de 2009.
Bonus round: GIFs animados
O GeoCities dava o espaço e os internautas o ocupavam... com GIFs animados! Dois eram especialmente populares: o de página em construção e o de e-mail. Diz a lenda que nenhum webmaster gostava de terminar a construção de suas páginas só para ter o GIF do homenzinho que não para de trabalhar. Sinta o drama.
6. Netscape Navigator
Como era bom ser desenvolvedor web em 1996! Em primeiro lugar porque fazer páginas totalmente estáticas, sem nenhum sistema ou programação por trás, era considerado normal. Depois porque o uso de editores visuais de HTML, estilo WYSIWYG, não era nenhuma vergonha. E, finalmente, porque só havia um navegador dominante: o glorioso Netscape Navigator 3.
Hoje em dia é necessário testar suas páginas em 5 ou 6 browsers - IE, Firefox 2, Firefox 3, Opera, Safari, Chrome. Sem contar os dispositivos móveis. Em 1996 só o Navigator já dava conta, pois o Internet Explorer 3 era pouco usado. O navegador da Microsoft ficou popular apenas na versão 4, lançado no ano seguinte.
O Netscape 4 ficou gigantesco, cheio de recursos extras, e ninguém gostou muito. O IE ganhou terreno e tornou-se dominante. Até a chegada do Firefox, que pouco a pouco vem lhe tomando mercado.
7. Editores visuais de páginas
Em 2009 os bons sites têm páginas leves, escritas cuidadosamente em XHTML semântico e totalmente diagramadas em CSS. E em 1996? As páginas - todas - eram pesadas, escritas em HTML macarrônico, cheias de imagens espaçadoras e, maior dos pecados, estruturadas em tabelas. Culpa dos editores visuais de sites que inundavam a internet. Culpa? Na época, ninguém se sentia culpado.
Surgiu primeiro o Vermeer FrontPage, comprado em 1995 pela Microsoft. Nele você fazia páginas como se estivesse usando o Word. O resultado final era desastroso. Em 1997 surgiu o Macromedia Dreamweaver (depois Adobe). A versão do 2 do Dreamweaver virou a queridinha dos webdesigners, que logo jogaram a reputação do FrontPage no lixo. Na verdade, o HTML do resultado não era tão melhor assim. Mas pelo menos ninguém tinha que duelar com os floats e os clears do CSS...
8. Eudora
Acredite se quiser: houve uma época em que usávamos softwares clientes para as operações básicas da internet. E-mail, grupos de discussão, chat, transferência de arquivos, tudo. Não existia o conceito de apliacação web: o browser era um leitor, um software para se ler páginas, não para executar programas.
Na verdade, o navegador não ficava aberto o tempo todo como fica hoje. O programa que ficava sempre rodando era outro: o cliente de e-mail. E um dos mais populares era o Eudora. Mais especificamente o Eudora Lite, que era gratuito. Eu, particularmente, demorei anos para trocar de leitor - para mim só o Eudora prestava. Aquele som que ele emitia para avisar de nova mensagem era música para meus ouvidos. Outlook? Nunca gostei. Mas, nas empresas, hoje ele é o dominante; nas casas, ninguém mais usa cliente de e-mail.
Bonus round: Zipmail
Os leitores de e-mail virtualmente desapareceram graças ao Hotmail. Criado em 1996, ele atraiu quase 10 milhões de assinantes em dois anos e fez surgir o conceito de aplicativo web que conhecemos hoje. Foi comprado pela Microsoft em 1997 por cerca de 400 milhões de dólares. Mas, no Brasil, popular mesmo foi o Zipmail. Lançado em 1998 com um comercial de TV estrelado por Luana Piovani, captou tantos usuários que seus servidores não davam conta de atendê-los. Foi comprado em 2000 pela Portugal Telecom por 365 milhões de dólares. Parte do dinheiro foi usado em cachaça: Marcos de Moraes, criador do Zipmail, é o proprietário do aguardente Sagatiba.
9. FTP Warez
Internet no ar, pirataria no ar. Mas em eras pré-Napster, pré-Emule, pré-Torrent, por quais canos escoavam o contrabando virtual? Pelos canos dos servidores clandestinos de FTP, os famosos FTP Warez. Hoje o FTP é restrito ao universo dos webmasters, e mesmo assim vai sendo substituído gradualmente pelos mais seguros SFTP e SCP. Na época era um protocolo muito popular, graças ao GeoCities e graças à pirataria.
O esquema clandestino era bem azeitado. Começava geralmente em sites em que se listavam canais piratas de IRC. Entrando nesses canais, o internauta precisaria encontrar a lista dos FTPs atualmente no ar, com suas senhas atualizadas. Daí sim ele poderia usar seu cliente favorito (como o popular WS-FTP) para violar copyrights ;-)
Além do ilícito, essa "caça ao tesouro" provavelmente dava um gosto todo especial de aventura aos FTP Warez. Hoje não há romantismo nem na pirataria...
10. WinAMP
O formato de áudio MP3 é fruto de anos de pesquisas. Mas, para o usuário final, tudo pareceu repentino: certo dia, surgiu na internet aqueles arquivos mágicos que reduziam música a poucos megas. A sigla MP3 caiu na boca de todos os hackers, pirateiros e geeks. E com ele, o software para ouvir esses arquivos: o WinAMP.
Por muitos anos, MP3 e WinAMP foram palavras inseparáveis. A inesquecível interface do WinAMP - um retângulo preto com botões cinza - ainda é símbolo de tocador de áudio para muitos internautas. E o áudio que acompanhava o software? "WinAMP, it really whips the llama's ass" - quem não se lembra disso?
A Nullsoft, criadora do WinAMP, foi comprada em 1999 pela AOL. E hoje o líder dos players é da Microsoft: o Windows Media Player.
Bonus round: O trote da Telerj
O primeiro MP3 de um monte de gente não foi de música. Foi o trote mais famoso da história, que já tinha sido gravado alguns anos antes mas se espalhou de maneira intensa na internet assim que a tecnologia de áudio ficou popular. É o "trote da Telerj", ou "trote do Pareto". Se não se importar com os palavrões, delicie-se :)
Faltou alguma coisa? Você se lembrou de outro ícone lá das primeiras experiências internéticas dos anos 90? Comente!
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